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Archive for the 'Textos' Category
Falta um pouco de atitude. Falta
maturidade. Falta sapiência talvez.
Falta um pouco de loucura. Um pouco de
intensidade.
Falta
drama. Falta teor,
profundidade.
Dizer
palavrões.
Pular as
janelas.
Tomar
sorvete.
Cerveja fria
na tarde
quente.
Cinema na terça.
Dançar no quarto.
Dirigir sem rumo.
Cantar no chuveiro.
Ler na rede.
Brincar.
Sorrir mais.
Olhar a vida.
Abraçar mais.
Beijar.
Ser feliz todo dia.
Pra
fazer valer
tudo
isso.
Porque não dá
pra
esquecer
ou
ignorar meu
coração.
Não dá pra apagar
tudo,
ou formatar a memória.
É necessário assumir quem
sou,
o que há em
mim.
Nessa
vida.
read comments (0)Colaboração
Author: reanoEu tenho só uma chance de mudar. Poeta de araque, vivo gastando o tempo que não tenho pela falta de porra nenhuma pra fazer achando belezas escondidas, objetos perdidos em antiquários suspeitos dentro do calabouço da minha mente, trôpega e desfigurada pelas mesmices e vulgaridade dos meus pensamentos e atitudes.
Colaboração involuntária do amigão Bruno.
Mais aqui: http://www.ernestoolivatto.blogspot.com/
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Author: reanoPor: Nelson Rodrigues
- O adulto não existe. O homem é o menino perene.
- Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.
- A perfeita solidão há de ter pelo menos a presença numerosa de um amigo real.
- Amar é ser fiel a quem nos trai.
- Toda autocrítica tem a imodéstia de um necrológio redigido pelo próprio defunto.
- Só acredito na bondade que ri. Todo santo devia ser jucundo como um abade da Brahma.
- O brasileiro é um feriado.
- Os jardins de Burle Marx não têm flores. Têm gramados e não flores. Mas para que grama, se não somos cabras?
- A burrice é a pior forma de loucura.
- No Brasil quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. O Otto Lara está certo. O mineiro só é solidário no câncer.
- O carioca é o único sujeito capaz de berrar confidências secretíssimas de uma calçada para outra calçada.
- Num casal, pior que o ódio, é a falta de amor.
- O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira.
- Geralmente, o puxa-saco dá um marido e tanto.
- O carioca é um extrovertido ululante.
- As bodas de prata são, via de regra, uma festa cínica que finge comemorar um amor enterrado.
- O pior cego é o surdo. Tirem o som de uma paisagem e não haverá mais paisagem.
- Os que choram pouco, ou não choram nunca, acabarão apodrecendo em vida.
- Gosto do cigarro que me queime a garganta. O fumo suave não passa de um ópio de gafieira.
- Toda coerência é, no mínimo, suspeita.
- Desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.
- Sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica.
- Numa simples ginga de Didi, há toda uma nostalgia de gafieiras eternas.
- Há homens que, por dinheiro, são capazes até de uma boa ação.
- Djalma Santos põe, no seu arremesso lateral, toda a paixão de um Cristo negro.
- A educação sexual só devia ser dada por um veterinário.
- Eu, como artista, se tivesse de escolher um epitáfio, optaria pelo seguinte: — “Aqui jaz Nelson Rodrigues, assassinado pelos imbecis de ambos os sexos”.
- Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado.
- Não há ninguém mais bobo do que um esquerdista sincero. Ele não sabe nada. Apenas aceita o que meia dúzia de imbecis lhe dão para dizer.
- Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo.
- A família é o inferno de todos nós.
- A fidelidade devia ser facultativa.
- O gordo só é cruel na mesa, diante do prato, com o guardanapo a pender-lhe do pescoço.
- D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva.
- Na mulher, certas idades constituem, digamos assim, um afrodisíaco eficacíssimo. Por exemplo:— quatorze anos!
- O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho.
- Hoje, a primeira noite é a centésima, a qüinquagésima. O casamento já é uma rotina antes de começar.
- O ser humano está mais para Lucho Gatica do que para Paul Valéry.
- O que se está fazendo aqui é uma música popular brasileira que não é popular, nem brasileira e vou além: — nem música.
- Aqui o branco não gosta do preto; e o preto também não gosta do preto.
- Amigos, eis uma verdade eterna: — o passado sempre tem razão.
- Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.
- O pobre, para sobreviver, precisa da pornografia.
- O presidente que deixa o poder passa a ser, automaticamente, um chato.
- O ônibus apinhado é o túmulo do pudor.
- É impossível ser ridículo dentro de uma Mercedes.
- Num casamento, o importante não é a esposa, é a sogra. Uma esposa limita-se a repetir as qualidades e os defeitos da própria mãe.
- A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.
- No Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio e, se quiserem acreditar, vaia-se até mulher nua.
- Uma dor de viúva dura 48 horas.
- Todo óbvio é ululante.
- Toda mulher gosta de apanhar. O homem é que não gosta de bater.
Frases selecionadas e organizadas por Ruy Castro, extraídas do livro “Flor de Obsessão“, Cia. das Letras – São Paulo, 1997
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Por: Arthur Conan Doyle (Sherlock Holmes)
Livre tradução:
Eu nunca suponho. É um erro crasso criar teorias antes de ter dados. Sem rodeios, as pessoas começam a distorcer os fatos pra sustentar as teorias, ao invés de de ter teorias que sustentam os fatos.
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Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha idéia de os achar belos.
Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos”
. Fernando Pessoa .
(Livro do Desassossego)
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Author: reanoPor: Max Ehrmann
Siga tranqüilamente, entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio.
Tanto quanto possível e sem humilhar-se, viva em harmonia com todos os que o cercam.
Fale a sua verdade mansa e claramente, e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes. Eles também tem sua própria história.
Evite as pessoas agressivas e transtornadas, elas afligem o nosso espírito.
Não se compare aos demais, olhando as pessoas como melhores ou piores: sempre haverá alguém inferior ou superior a você.
Viva intensamente os seus ideais e o que você já conseguiu realizar. Mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde. Ele é um verdadeiro tesouro na contínua mudança dos tempos.
Seja cauteloso nos negócios, porque o mundo está cheio de astúcia, mas não deixe de enxergar a virtude. Ela existirá sempre e a vida é cheia de heroísmo.
Seja você mesmo. Principalmente, não simule afeição nem seja descrente do amor, porque mesmo diante de tanta aridez e desencanto ele é tão perene quanto a relva. Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas também seja compreensivo aos impulsos inovadores da juventude.
Cultive a força do espírito, ela o protegerá no infortúnio inesperado. Não se desespere com perigos imaginários, muitos temores nascem do cansaço e da solidão.
E a despeito de uma disciplina rigorosa, seja gentil consigo mesmo.
Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores, você merece estar aqui. Mesmo que você não possa perceber, a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.
Esteja em paz com Deus, como quer que você o conceba. Quaisquer que sejam os seus trabalhos e aspirações na fatigante jornada pela vida, mantenha sua alma em paz. Acima da falsidade, do desencanto e agruras, o mundo ainda é bonito. Seja prudente.
Faça de tudo pra ser feliz.
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Author: reanoou
Refletindo transparências.
As pernas não mais aparentavam ter a força de antes. Tampouco tinham. Estavam bambas, fracas, gastas. Contudo, continuavam cruzadas elegantemente. Cocho, a direita, enquanto esticada e apoiada, acabava por tirar a esquerda do chão. Alinhadas, como a de uma top model, ou não, como a de um soldado da cavalaria, sustentavam todo o corpo, o que fazia parecer que eram maiores que este.
O corpo não era surpreendente. Sua aparência não era moderna. Seu estilo conquistava somente kitschs. Rechonchudo, tinha uma longa circunferência que chamava atenção por onde passava. Não era novo, também não era velho. Tinha as marcas do tempo, mas não escondia as rugas. Seu ar remetia seriedade e conhecimento. Quem o cruzasse julgava-o estar vindo ou indo de uma biblioteca, cinema ou teatro.
Pela manhã, era sempre visto com o jornal diário. E também com um pacote de papel marrom, onde se podia ler “Servir bem para servir sempre”. Pela praça, seu caminho de quase-aposentado, freqüentemente a poeira o incomodava. A chuva também, mas com essa estava acostumado: um lenço à mão já resolvia seu problema.
Pela tarde, refletia as opiniões da TV, sua principal companhia, assim como pela manhã fazia com a manchete do dia. Foi do infindável tempo que passava no sofá que ficou cocho. Mas hoje de nada já importava, isso não o atrapalhava em qualquer atividade.
À noite, devido a pouca iluminação, resumia-se a se abandonar em uma poltrona. Antes do sono que não tinha, recebia sua visita. E ao contrário de todo o dia, essa hora não refletia nada. Apenas transparecia um olhar triste de mentira, de raiva, de remorso, de dúvida e de arrependimento. A visita se ia poucos minutos após ter vindo. Via-se então, por trás dele, as costumeiras lágrimas de seu dono, que o tirava calmamente do rosto. A perna direita era dobrada primeiro e a cocha vinha logo em seguida. No nariz do velho ficavam as marcas do peso de seu aro grosso e redondo. E com as mãos tremendo, o triste homem deitava-o em seu criado-mudo embaixo da janela, refletindo somente o nome do asilo no portão.
read comments (0)Lacunas
Author: dani
Desmaio. Perda de sentidos sem dor. Escuridão de quarto trancado, de noite sem lua, de lago sob as árvores imensas que o cercam protetoras. O corpo imóvel à espera. O eu solto no espaço infinito, pairando por entre as estrelas de cristal. Leveza e solidão. Prazer de arrepio, de quente no frio, de mãos que se alisam insanas.
A imagem dos olhos refletidos na água, o fundo chamando, magnético. A viagem breve e fácil. Sou nada, solto no espaço. Puro feixe de luz, sentidos plenos, êxtase e calor. Sinto-me um sol queimando o mundo, lançando-se sobre ele como um manto quente. Não sinto meu corpo, mãos, membros, mas meu corpo me sabe aqui…
Meus olhos se abrindo para a claridade que invade o quarto pelas vidraças descortinadas, voltando a se fechar rapidamente. Luz insuportável.. O cheiro de absinto impregna os lençóis e meu corpo entorpecido por ele está cravado no colchão. A cama estava vazia, mas me lembro que não me deitei só. Sinto ainda a dor atravessando meu corpo em correntes irregulares. E há um cheiro de sexo no ar, misturando-se levemente à bebida que meu corpo exala. Não consigo lembrar seu rosto. Sinto em minha pele a ardência por onde roçou a barba mal feita, sinto seus dedos fortes passeando em mim, me apertando e invadindo sem aviso. E o cheiro suave da pele em contraste com a minha, da boca sôfrega e úmida, buscando meu corpo e me acendendo fácil. Talvez seja o mesmo da noite passada… Não, esse era melhor, mais quente e lento, me tocava de forma abrangente, avassaladora, e tinha algo de irreal, talvez os olhos, não sei bem agora.
De pé o espelho revela marcas roxas espalhadas por minhas coxas, seios, barriga. Gosto de meu corpo, pequeno e feroz. Gosto do jeito que meus pelos estão, das unhas de meus pés vermelhas. Cor de puta, diria minha mãe. Minha cabeça dói enquanto penso em meus cabelos sendo puxados com força, no corpo batendo em mim. E sinto de novo o calor, o sexo acender, o arrepio salpicando meu corpo para me jogar na cama outra vez. Me contorcendo sobre meu próprio corpo, me sinto inteira e úmida. Quente. As mãos sentindo a própria pele, a pele se dissolvendo ao toque, gemidos enchendo o quarto antes vazio. Queimando sozinha na cama, na fogueira de d’Arc, pecando sozinha diante do teto branco luminoso. Louca sobre mim mesma, meus dedos me invadem ágeis, a dor do sexo cansado de ser penetrado, o tesão do momento descompassando a dor, a febre, a boca lembrando da língua invadindo sem parar. Desvairada a gozar, o corpo se fechando, o prazer, a doçura do momento, do eu a me amar.
E enfim outra vez me prostrar sobre o branco compacto os lençóis, para adormecer, me deixar dispersar, desmaiar.
A sombra da noite preenche todo o quarto quando meus olhos se abrem outra vez. Fome, um nada dentro de mim. Lentamente percebo que não estou só. Na penumbra vejo a fumaça desenhar fantasmas que atravessam o teto. E a ponta do cigarro que cintila para em seguida se apagar. Fico imóvel a espera. Um medo estranho me invade disparando meu coração e gelando minhas mãos. Respiro de forma descontrolada. Levanto meu corpo devagar e vejo que estou vestida. Um tecido fino e transparente cobre meu corpo e percebo que ele está a minha espera.
Minhas pernas me põem de pé e dou passos hesitantes, sentindo que a fome pode me derrubar no caminho. Espero que tudo pare de girar por um instante e sigo até parar diante dele. Num movimento rápido ele me puxa pelos cabelos me forçando a cair diante dele. Me mantém assim enquanto olha bem dentro dos meus olhos com fúria e amor. Sem olhar abro o botão de sua calça e enfio meus dedos pequenos. Sinto meu corpo queimar e a violência com que me segura apenas aumenta meu desejo, a dor penetra meu corpo e se transforma e prazer que me decompõem em delírio. E ele empurra minha cabeça para baixo de forma que eu sinta bem perto o cheiro do sexo sem poder alcançar. Tento usar a língua que toca apenas de leve, me enlouquecendo, fazendo crescer a raiva e o desejo. Sinto o calor que o seu corpo emana, a dor de meus cabelos sendo puxados pra trás, e enfim me deixa sugar um pouco para em seguida me afastar. Ri da minha dor e me beija na boca, lambe meu rosto, me molha. Me empurra outra vez pra esfregar em meu rosto o pau duro e quente, tento prender com a boca mas ele me impede, apenas me enlouquece devagar, me faz querer.
Devagar ele se levanta e deixa cair meu vestido. Me segura sempre de forma que meus movimentos sejam controlados por ele. Estou a sua mercê, inerte, submersa pelo desejo incontrolável que me descompassa e destrói. De súbito me lança sobre a mesa e me ergue. Rápido me sinto preencher por seu pau, sem aviso, feroz. De novo a dor e o tesão se misturam, me ouço gemer, me sinto a cair de algum voar, sem fim, me vejo gozar, gritar, me sinto contrair, inflamar. Estou solta outra vez, deixada sem aviso e sem adeus sobre a mesa um pouco molhada por meu próprio corpo. Ouço a porta bater. Deixo-me outra vez apagar, esquecida da fome e da dor, feliz e completa, incompleta.
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Já nada há de inofensivo. As pequenas alegrias, as manifestações da vida que parecem isentas da responsabilidade do pensamento não só têm um momento de obstinada estupidez, de autocegueira insensível, mas entram também imediatamente ao serviço da sua extrema oposição. Até a árvore que floresce mente no instante em que se percepciona o seu florescer sem a sombra do espanto; até o “como é belo!” inocente se converte em desculpa da afronta da vida, que é diferente, e já não há beleza nem consolação alguma excepto no olhar que, ao virar-se para o horror, o defronta e, na consciência não atenuada da negatividade, afirma a possibilidade do melhor. {…} A própria sociabilidade é participação na injustiça, porquanto dá a um mundo frio a aparência de um mundo em que ainda se pode dialogar, e a palavra solta, cortês, contribui para perpetuar o silêncio, {…}. Para o intelectual, a solidão inviolável é a única forma em que ainda se pode verificar a solidariedade. Toda a participação, toda a humanidade do trato e da partilha são simples máscara da tácita aceitação do inumano. Há que tornar-se consonante com o sofrimento dos homens: o mais pequeno passo para o seu contentamento é ainda um passo para o endurecimento do sofrimento“
. Theodore Adorno in Minima Moralia .
read comments (0)É proibido viajar
Author: reanoPor: Contardo Calligaris
A modernidade, que começou com a livre circulação, acaba proibindo a viagem
No episódio dos jovens pesquisadores brasileiros barrados em Madri, as autoridades espanholas agiram como se o cônsul-geral do Brasil contasse lorotas para facilitar o trânsito de imigrantes ilegais. O desrespeito justifica a “retaliação” brasileira.
No mais, a cada dia, as fronteiras do mundo (não só do primeiro) barram alguém que tenta viajar, sobretudo se for jovem, solteiro e sem as aparências de uma “vida feita”.
Ao atravessar uma fronteira, o passaporte prova que estamos em paz com a Justiça de nosso país. As outras nações devem decidir se somos hóspedes desejáveis. Nas últimas décadas, as “condições” para ser desejável se multiplicaram. Hoje, no caso da Espanha:
1) 70 por dia de permanência planejada;
2) passagem de volta marcada;
3) reserva de hotel, já pago;
4) para quem se hospedar com parentes, formulário preenchido pelos mesmos;
5) quem se desloca para trabalhar deve dispor de um contrato assinado.
Normas muito parecidas valem na maioria dos países.
O escândalo é que essas condições podem nos parecer “aceitáveis”. Afinal, qualquer Estado quer proteger o emprego de seus cidadãos impedindo a chegada de imigrantes não-autorizados, não é? Pois é, Michel Foucault é mesmo o pensador para os nossos tempos: o sistema social e produtivo dominante ordena nossas vidas furtivamente, convencendo-nos de que não há opressão, mas apenas necessidades “racionais”. Se achamos essas regras “aceitáveis”, é porque já adotamos a idéia de que, no nosso mundo, só é legítimo ter moradia fixa e profissão estável.
As pessoas com moradia fixa podem, quando elas dispõem dos meios necessários, adquirir uma passagem de ida e volta e sair de seu lar seguindo um programa pré-estabelecido -ou seja, podem ser, ocasionalmente, turistas.
Escárnio: prefere-se que os turistas sejam otários, pagando de antemão. Há uma pousada melhor da que estava prevista? Você quer encurtar a viagem? Pena, você já pagou. Mas isso é o de menos. Importa o seguinte. A modernidade, que começou com a circulação (livre ou forçada) de todos os agentes econômicos, acaba parindo, nem mais nem menos, a proibição da viagem. Como assim? Pois é, viajar não tem nada a ver com férias num resort ou com ser transportado de cidade em cidade para que os cicerones nos mostrem as coisas “memoráveis”.
Para começar, viajar é usar uma passagem só de ida.
- Quanto tempo você vai ficar?
- Não faço a menor idéia. Um dia? Três meses? Um ano?
- E você vai para onde?
- Não sei. Talvez eu curta uma pequena enseada, alugue um quarto numa casa de pescadores e fique comendo caranguejos com os pés na areia. Talvez, já no avião ou pelas ruas de Barcelona, eu me apaixone por uma holandesa, um russo ou uma argelina e os siga até o país deles, por uma semana ou um mês.
Se a paixão durar, ficarei por lá.
- E o dinheiro?
- Não sei, meu amigo. Toco violão, posso ganhar um trocado numa esquina ou no metrô. Também posso lavar pratos, ajudar na colheita, cortar lenha, lavar carros e vender pulôveres. E, se a coisa apertar, tenho endereços de parentes e conhecidos que nem sabem que estou viajando, mas não me recusarão uma sopa e um banho quente. Além disso, em Paris, quando fecha o mercado da rua Saint Antoine, sobram na calçada as frutas e as saladas que não foram vendidas; em São Paulo, Londres e Nova York, conheço dezenas de igrejas que oferecem um pão com manteiga; em Varanasi, ao meio dia, distribuem riso com curry e carne aos peregrinos.
Cem anos depois da invenção do passaporte com fotografia, chegamos nisto: uma ordem que só permite se movimentar para consumir férias ou para se relocar segundo os imperativos da produção.
As regras que barram o viajante expressam nossa própria miséria coletiva: perdemos de vez o sentimento de que a vida é uma aventura. Preferimos a vida feita à vida para fazer.
Para quem quiser ler sobre a história da documentação de viagem, uma sugestão: “Invention of the Passport: Surveillance, Citizenship and the State” (invenção do passaporte: vigilância, cidadania e o Estado), de Torpey, Chanuk e Arup (Cambridge University Press).
Para quem quiser viajar, outra sugestão: a mentira, num mundo opressivo, é uma forma aceitável de resistência.
read comments (0)metades.
Author: daniporque, há muito, eu erro a mão. a dose. esqueço a receita do equilíbrio. o quanto uso das partes que brigam dentro de mim. há muito, eu me confundo. porque metade não tem medo e levanta os braços, na descida da montanha-russa. olhos abertos, enquanto outra acha melhor enfrentar a queda com as mãos na barra. segurando forte. espremendo os dois olhos, fechados, desde o começo do percurso. metade prefere brincar na beira da praia. no raso. enquanto outra não vê problemas em pular dezenas de ondas e nadar onde a pequena bandeira vermelha, agitada pelo vento, avisa sobre o risco. sobre o possível afogamento. porque, há muito, eu erro a receita do equilíbrio. uso a parte que não deveria na hora em que não poderia. me confundo com as metades que brigam dentro de mim. porque parte acelera na estrada, no momento da curva fechada. pé direito até o fim, enquanto outra freia, bruscamente, ao ver a primeira placa. seta torta, avisando sobre o perigo. metade não suporta a burrice, a pequenez, a lerdeza. outra, sempre calada, tolera a banalidade. engole a ignorância. convive com a mediocridade. há muito, eu erro a mão. a dose. me confundo com o que devo usar. porque metade briga. explode. dedo apontado na cara, enquanto outra se recolhe, quieta, debaixo da cama. no quarto fechado. no tudo escuro. metade berra. outra sussurra. tenho uma parte que acredita em finais felizes. em beijo antes dos créditos, enquanto outra acha que só se ama errado. tenho uma metade que mente, trai, engana. outra que só conhece a verdade. uma parte que precisa de calor, carinho, pés com pés. outra que sobrevive sozinha. metade auto-suficiente. mas, há muito, eu erro a mão. a dose. esqueço a receita do equilíbrio. me perco. há dias em que uso a metade que não poderia. dias em que me arrependo de ter usado a que não gostaria. porque elas brigam dentro de mim, as metades. há algumas mais fortes. outras ferozes. há partes quase indomáveis. metades que me fazem sofrer nessa luta diária. no não deixar que uma mate a outra.
read comments (0)O que é pirata?
Author: reano“Yo ho ho e uma garrafa de rum…” Estribilho de uma canção de piratas
Faz algum tempo que, ao assistir a DVDs, em casa, sou quase que literalmente obrigado a assistir aos trailers e comerciais que precedem o filme – pois o controle remoto não mais responde, como antes, ao comando de skip introductory shit. Claro que isso transgride a minha liberdade de consumidor e cidadão – mas quem se preocupa com isso, atualmente?
Um dos comerciais mais freqüentes – nessa veiculação obrigatória e clandestina no meu domicílio – mostra um pai de família que, semelhante a um pássaro que caçou uma gorda minhoca, traz ao seu lar um DVD pirata. Ao vangloriar-se do feito, ele é severamente repreendido por toda a família, liderada pelo filho.
Esta parece ser mais um filão da publicidade televisiva contemporânea: mostrar maridos e pais como perfeitos idiotas, diante das esposas e famílias. Há um – recente – em que o desventurado pater familias é agraciado, pela própria filha, com um nariz de palhaço, pelo crime de não saber que havia uma liquidação numa loja da moda…
Este comercial e outros, na TV, bem como os muitos anúncios veiculados no rádio e na imprensa, são assinados por presumíveis associações de indústrias ligadas a produtos protegidos por direitos autorais, como filmes, música e software de computação. Não é difícil imaginar as corporações gigantescas que devem estar por trás dessas bem-intencionadas associações.
Tenho pensado, contudo: o que, na verdade, é “pirata”? O DVD copiado artesanalmente, em casa, por pequenos empresários brasileiros? Aqueles fabricados industrialmente na China, sem pedir permissão aos seus donos?
O processador de texto gentilmente cedido pelo amigo ou o namorado…
Mais: qual é a diferença essencial entre um CD pirata e um produto farmacêutico “genérico”, coisa aprovadíssima pelos nossos governos (e que quase elegeu o ex-ministro da saúde de FHC à presidência)? Sabem de uma coisa? Nenhuma.
As patentes e os direitos civis dos laboratórios que desenvolveram a droga foram simplesmente atropelados. E é muito tênue a linha que distingue um produto de consumo tradicional – de marca conhecida – de um outro que fica ao seu lado, na prateleira, e ostenta a “marca própria” da rede de supermercados. Em muitos casos, são produzidos pelo mesmo fabricante e oferecidos com embalagem e preço diferentes – não raramente, como resultado de uma “proposta irrecusável” por parte do varejista.
Até que ponto, a imitação, o produto copiado, o plágio e o sucedâneo não se tratam de ações de legítima defesa que a própria sociedade cria, diante dos cartéis e dos monopólios? Ou idealistas manifestações da desobediência civil, preconizada por gente grande como Thoreau e Gandhi?
Tai uma idéia que me faz sonhar com um Brasil novo, em que haja linhas aéreas piratas, telefones celulares piratas, empresas de água, luz e telefone piratas e – quem sabe – um governo pirata, que se mantenha no poder unicamente pelos próprios méritos e pela satisfação que proporcione aos cidadãos-clientes.
Texto retirado da edição de hoje do jornal Propaganda e Marketing, por J. R. Whitaker Penteado. Quem quiser conferir a versão original, acesse: http://www.propmark.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=43768&sid=26
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Author: reanoPor: Gibran Kahlil Gibran
Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um grilhão.
Que haja, antes, um mar ondulante
entre as praias de vossa alma.
Enchei a taça um do outro,
mas não bebais da mesma taça.
Dai do vosso pão um ao outro,
mas não comais do mesmo pedaço.
Cantai e dançai juntos,
e sede alegres,
mas deixai
cada um de vós estar sozinho.
Assim como as cordas da lira
são separadas e,
no entanto,
vibram na mesma harmonia.
Dai vosso coração,
mas não o confieis à guarda um do outro.
Pois somente a mão da Vida
pode conter vosso coração.
E vivei juntos,
mas não vos aconchegueis demasiadamente.
Pois as colunas do templo
erguem-se separadamente.
E o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro.
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Meu Amigo, não sou o que pareço. O que pareço é apenas uma vestimenta cuidadosamente tecida, que me protege de tuas perguntas e te protege da minha negligência.
Meu Amigo, o Eu em mim mora na casa do silêncio, e lá dentro permanecerá para sempre, despercebido, inalcançável.
Não queria que acreditasses no que digo nem confiasses no que faço – pois minhas palavras são teus próprios pensamentos em articulação e meus feitos, tuas próprias esperanças em ação.
Quando dizes: “O vento sopra do leste”, eu digo: “Sim, sopra mesmo do leste”, pois não queria que soubesses que minha mente não mora no vento, mas no mar.
Não podes compreender meus pensamentos, filhos do mar, nem eu gostaria que compreendesses. Gostaria de estar sozinho no mar.
Quando é dia contigo, meu Amigo, é noite comigo. Contudo, mesmo assim falo do meio-dia que dança sobre os montes e da sombra de púrpura que se insinua através do vale: porque não podes ouvir as canções de minhas trevas nem ver minhas asas batendo contra as estrelas – e eu prefiro que não ouças nem vejas. Gostaria de ficar a sós com a noite.
Quando ascendes a teu Céu, eu desço ao meu Inferno – mesmo então chamas-me através do abismo intransponível, “Meu Amigo, Meu Companheiro, Meu Camarada”, e eu te respondo: “Meu Amigo, Meu Companheiro, Meu Camarada” – porque não gostaria que visses meu Inferno. A chama queimaria teus olhos, e a fumaça encheria tuas narinas. E amo demais meu Inferno para querer que o visites. Prefiro ficar sozinho no Inferno.
Amas a Verdade, e a Beleza, e a Retidão. E eu, por tua causa, digo que é bom e decente amar essas coisas. Mas, no meu coração rio-me de teu amor. Mas não gostaria que visses meu riso. Gostaria de rir sozinho. Meu Amigo, tu és bom e cauteloso e sábio. Tu és perfeito – e eu também, falo contigo sábia e cautelosamente. E, entretanto, sou louco. Porém mascaro minha loucura. Prefiro ser louco sozinho: Meu Amigo, tu não és meu Amigo, mas como te farei compreender? Meu caminho não é o teu caminho. Contudo juntos marchamos, de mãos dadas”.. Gibran Khalil Gibran .
read comments (0)Poesia Diária
Author: reanoPoesia diária
quando tu passas
do meu lado
e quase te toco.
E sinto teu cheiro
e vejo tua boca
e curto teu riso!
Poesia diária,
quando tu falas
e fico calado,
pareço um tolo.
E parado, perdido…
Imagino teu sexo.
Imagino o improvável,
O imprevisto…
Me visto, te assisto,
invisto no nada
pra colher bons fluídos,
teus fluídos que não conheço.
Alvoroço, pedaço de universo,
soluço que imagino sentir
em versos que hão de vir
por teu corpo, por teu corpo.
Poesia diária,
quando chego atrasado
e o chefe me olha ressabiado
mas não vejo nada, só teu tudo.
E quando recebo a bronca, nem ligo!
Se fosse pra ligar, ligaria pra ti.
Teu número consta no meu celular
mas cadê coragem pra te telefonar?
Outro não? Não!
Poesia diária é teu sorriso!
Poesia diária que não tenho,
mas não ligo, não ligo!
Desligo, me desligo
do mundo, de tudo,
do teu sorriso…
Consigo?
read comments (0)E então o súbito silêncio dentro de mim. Como se de repente o vazio se preenchesse de vozes caladas, e tudo que restasse fosse um breve eco imaginário dos murmúrios ditos no ouvido, encostando de leve os lábios pra causar arrepios.Era tarde quando morri. O céu mareado por nuvens amarelecidas pelos últimos raios que se atreviam pelo lado de cá. Senti simplesmente minha alma se desprender e pairar sobre meu corpo quieto. Era o espelho meu corpo deitado sob minha sombra invisível. Um espelho um pouco distorcido que exibia meu rosto petrificado numa expressão estranha. Tentei agrupar meus últimos pensamentos antes de deixar meu corpo. Mas foram muitos. E eram pensamentos interrompidos por suspiros de arrependimento.Senti a leveza e percebi que eu não era nada além de uma partícula pensante, um feixe de luz imaginário, um nada solto como aquelas pequenas partículas que pairam numa faixa de luz solar. E senti falta de meu corpo, quis voltar pra ele.Mergulhei rapidamente pelo lado direito da minha têmpora buscando o lugar dentro de mim que me acenderia outra vez, que me tornaria novamente um ser de carne, osso, coração. Mas não havia nada. Só escuridão. Nenhum som, nenhuma pequena fração de luz, de calor, de vida. Era só uma pedaço de carne sem vida. Tudo que restava de mim agora era esse fio de pensamento, sem direção e sem conhecimento que o levasse dali.Decidi permanecer junto ao meu corpo, enquanto ele ali estivesse. Logo alguém o encontraria e por um instante tentei imaginar a reação da pessoas. Não. Eu não gostaria de presenciar a cena da descoberta de meu corpo sem vida. Ou esperar enquanto alguém me despia e limpava e vestia de maneira apropriada para o funeral. E passar todas aquelas horas humilhantes ao lado do meu corpo sendo observado minuciosamente pelos amigos e parentes que chorariam, rezariam, e sairiam dali para continuar com suas próprias vidas dentro de seus corpos cheios de calor e movimento.Incrível. Realmente eu havia morrido. Estava ali estacionada um pouco acima de meu peito, verificando de perto que eu tinha as sobrancelhas por fazer. Será que alguém se lembraria de ajeitá-las para o velório? Meus cabelos estavam soltos, espalhados pelo piso frio do banheiro. Por que mesmo eu teria deixado que eles chegassem a esse comprimento? Eu usava uma camisola curta de flores pequenas coloridas. Meus óculos de leitura estavam meio tortos, mas continuavam encaixados no meu nariz. Minhas unhas bem feitas e em minha mão um frasco pequeno. Ah sim, as pílulas haviam acabado. As malditas pílulas que me manteriam viva, dentro desse corpo aí, do qual eu já começava a me distanciar.Sim, não sentia mais que aquele corpo me pertencia ou que aquela figura bizarra e descomposta no chão tinha sido eu algum dia. Seria eu esse mesmo pensamento solto no ar se tivesse habitado um outro corpo? Sentia-me feminina como sempre e não achei provável naquele momento que eu pudesse encarnar um corpo masculino. Ou um cão. Ou uma planta qualquer.Pensei então nas pessoas que eu amava. Elas me amariam da mesma forma se eu tivesse outra cor de pele, outros cabelos, outro corpo? Teria sido eu tão feliz e tão triste com outra aparência quanto fui com essa estendida bem à minha frente?E então me ocorreu a inutilidade de minha existência.Eu era agora um mero pensamento solto no ar, com todo o conhecimento adquirido em minha vida contido nele, nesse nada flutuante. E não consegui distinguir minhas pegadas pelo mundo. Não consegui naquele momento enxergar as marcas que eu deveria ter deixado, boas ações. Mas meus erros eram bem visíveis. Todos eles. Do primeiro ao último. E me senti muito só naquele silêncio. Pensei que se eu pudesse voltar faria tudo diferente. E começaria a mudar minha vida daquele momento em diante.
read comments (0)A origem etimológica do gozo
Author: reanoPara os romanos. ‘gaudium, ii’ significava alegria, satisfação, regozijo. Terencio dizia ‘lacrimare gaudio’ para expressar ‘chorar de alegria’, e Cícero, ‘gaudiis exultare’, com o sentido de estar transbordante de alegria.
Nas línguas romances, o ditongo latino ‘au’ converteu-se com freqüência em ‘o’. Isto é mais evidente em francês, língua de ortografia mais tradicional, na qual se segue escrevendo ‘au’, mas se pronuncia ‘o’. Em espanhol e português, o grupo latino ‘di’ converteu-se em ‘z’.
As principais acepções de gozo em nossa língua são o sentimento de satisfação e prazer, posse ou uso de alguma coisa, como em “gozo de um direito”, “gozo de férias”. Gozar é ainda, em linguagem coloquial, brincar com alguém com provocações amistosas e também experimentar um orgasmo.
read comments (0)As cinzas
do dia
o isqueiro
o cinzeiro
confetes e beijos vazios
a quarta
a quinta
os dias seguintes
eu.
Você aí,
do lado de lá de mim,
no meu avesso,
meu direito,
acertos e erros,
meio e fim.
As idéias no ar,
o sol no chão,
por entre a sombra das folhas.
Os copos vazios,
cigarros sem chama,
corpos na cama
vazios
vazio
me chama.
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Aqui…
Desde o dia em que o tempo passou nada mais foi como era.
O pó se acumulou sobre os antigos pertences, sobre as vidas que aqui moravam.
As aranhas teceram teias e capturaram novos insetos. Fome.
As águas inundaram os buracos deixados pelos carros que nunca cessam.
Os meus pedaços foram se espalhando de acordo com os desígnios do vento.
E o vento sopra.
Ouço seu canto nos desfiladeiros do que sobrou de mim.
Escuto seu choro nas noites de tempestade.
E minhas partes se separam, se quebram em mais pedaços, que se afastam sempre.
Meus pés tomaram direções opostas sem se preocupar com o resto de mim que se dividia.
Desde aquele instante.
O instante incerto em que o tempo decidiu passar para sempre.
E então nada é sempre igual.
Os grãos que formam a praia se transformam a cada onda.
Em meu rosto vejo marcas deixadas por unhas cravadas na carne, pelas mãos do tempo.
Em seu rosto vejo meu próprio rosto, moldando-se lentamente por entre as células que formam você.
Seus olhos me mostram nua, prostrada diante da fúria com que me toma.
E o vento sopra mais forte então.
Me leva cada vez mais para longe de mim,
para dentro de você.
read comments (0)Desvanecer
Foi assim, como um vento levando pó fino.
De pouco, a nuvem translúcida se levanta,
sem perceber há uma leve camada cobrindo tudo.
O brilho se perde,
as superfícies vão ficando foscas,
e quase não se nota o processo.
Nos finais como furacões,
nada ficou no lugar.
Rápidos e furiosos,
devastadores.
Agora foi diferente.
Veio como brisa e parecia não fazer mal.
Mas um dia,
não se enxergou no espelho.
O dedo na superfície revelou a fresta de face já coberta pelo pó.
Então ela não era aquilo que há tanto tempo via?
A agitação fez o pó subir ao seu redor.
Ao respirar, asfixia.
Como não notou aquela poeira se juntando?
Não saberia dizer há quanto tempo aquilo tinha começado.
Mas foi assim que acabou seu último amor.
Em lenta erosão,
como um vento levando pó fino,
de pouco, cobrindo tudo.
Soterrado, mas não morto.
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