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Archive for the 'Pastilhas' Category
Aqui…
Desde o dia em que o tempo passou nada mais foi como era.
O pó se acumulou sobre os antigos pertences, sobre as vidas que aqui moravam.
As aranhas teceram teias e capturaram novos insetos. Fome.
As águas inundaram os buracos deixados pelos carros que nunca cessam.
Os meus pedaços foram se espalhando de acordo com os desígnios do vento.
E o vento sopra.
Ouço seu canto nos desfiladeiros do que sobrou de mim.
Escuto seu choro nas noites de tempestade.
E minhas partes se separam, se quebram em mais pedaços, que se afastam sempre.
Meus pés tomaram direções opostas sem se preocupar com o resto de mim que se dividia.
Desde aquele instante.
O instante incerto em que o tempo decidiu passar para sempre.
E então nada é sempre igual.
Os grãos que formam a praia se transformam a cada onda.
Em meu rosto vejo marcas deixadas por unhas cravadas na carne, pelas mãos do tempo.
Em seu rosto vejo meu próprio rosto, moldando-se lentamente por entre as células que formam você.
Seus olhos me mostram nua, prostrada diante da fúria com que me toma.
E o vento sopra mais forte então.
Me leva cada vez mais para longe de mim,
para dentro de você.
read comments (0)Desvanecer
Foi assim, como um vento levando pó fino.
De pouco, a nuvem translúcida se levanta,
sem perceber há uma leve camada cobrindo tudo.
O brilho se perde,
as superfícies vão ficando foscas,
e quase não se nota o processo.
Nos finais como furacões,
nada ficou no lugar.
Rápidos e furiosos,
devastadores.
Agora foi diferente.
Veio como brisa e parecia não fazer mal.
Mas um dia,
não se enxergou no espelho.
O dedo na superfície revelou a fresta de face já coberta pelo pó.
Então ela não era aquilo que há tanto tempo via?
A agitação fez o pó subir ao seu redor.
Ao respirar, asfixia.
Como não notou aquela poeira se juntando?
Não saberia dizer há quanto tempo aquilo tinha começado.
Mas foi assim que acabou seu último amor.
Em lenta erosão,
como um vento levando pó fino,
de pouco, cobrindo tudo.
Soterrado, mas não morto.
read comments (0)Sinceridade
Author: reano
Sinceridade? Quem está preparado pra ela? Você? Me prove.
A realidade é que vivemos num eterno mis en scene de que somos sinceros. Viver em sociedade significa e sempre significará abrir mão dos próprios desejos e vontades. Abrir mão da sinceridade de se dizer o que se pensa.
Isso soa cruel ou radical? Talvez seja mesmo. A verdade é que o velho ditado que entoa que “nossa liberdade começa onde termina a do outro” é mais atual que nunca.
Ser sincero em demasia seria abrir espaço para falar e ouvir o que as pessoas acham mesmo, sem meias palavras, sem hipocrisia, sem rodeios.
Cada um dentro de sua interpretação e entendimento do mundo ou melhor, de sua própria interpretação da realidade, o que nada mais é do que a própria realidade para cada um de nós.
Se eu estaria preparado para tudo isso? É claro que não.
Você estaria?
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