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Eu, o coisa ruim.
Author: reano24.04.2008
ou
Por que para alguns o autor usa o próprio sangue como tinta para escrever esse blog.
Acontece que no trabalho andam me chamando de diabo, coisa ruim, filho do demo, Lúcifer, Belzebu, cão, grão-tinhoso, filho de chocadeira, anticristo, encardido, Satanás, Mefisto, capeta, Satã, excomungado ou simplesmente, Aquele.
Como eu não tenho um rabo pontiagudo, não ando com um tridente na mão, tampouco tenho chifres nem sou vermelho, acredito que minha relação com o filho de chocadeira seja pela representação do mal. Mas como, logo eu, que estudei toda a minha vida em colégio de freiras, me tornei parecido com um ser metade homem, metade bode, com pentagramas invertidos tatuados no corpo?
Para descobrir, vamos retomar a história desse personagem tão intrigante. Acredito que conheci o coisa ruim em uma história que ele tinha forma de cobra, oferecendo uma suspeita maçã para jovem casal que andava desnudo e sozinho pelo paraíso. Jovens, desnudos e sem ninguém para tomar conta, é claro que eles iriam experimentar da fruta.
Depois disso, escutei pela boca da Irmã Luci, minha professora de catecismo e cruzeirense fanática, que o excomungado tentou Jesus enquanto este vagava em grande agonia por um imenso deserto. Dizem que a tentação apareceu para o Filho de homem em forma de mulher. Se fosse em forma de água, não sei se a história seria diferente. Até iria perguntar isso para Irmã Luci, mas nesse dia ela estava salvando minha vida: a Irmã Julita, madre do colégio, sabia que eu estava matando aula para assistir Itália X Coréia pelas oitavas de final da Copa do Mundo. E eu estava mesmo, junto com minha amiga cruzeirense fanática, que achava linda a torcida oriental toda de rosa. Mas acontece que a Irmã Julita nos encontrou. Na hora, pensei: “Estou suspenso”. Mas foi aí que interveio a Irmã Luci e disse: “Ele só está tirando uma dúvida comigo sobre o catecismo”. A tal dúvida seria sobre a tentação em forma de copo d’água para um homem que está no deserto, mas a gente não esperava que a azurra fosse perder aquele jogo e acabei esquecendo.
Para quem achou estranho, está certo mesmo. Na Copa de 2002 eu tinha 14 anos e estava fazendo catecismo. Atrasado? Muito velho? Não para quem só batizou com sete anos, depois de uma forte pressão da avó. Será que isso já era um sinal do que viria a me tornar?
Bom, depois do episódio acima, comecei a escutar histórias mais racionais sobre o demo. A que tem mais sentido para mim é a versão de que o tal foi uma invenção da Igreja Católica logo em seus primórdios, pois estava perdendo fiéis para o paganismo. Assim, criaram um símbolo de toda maldade, que representa assustadoramente o oposto das características e poderes de Deus. Com isso, os fiéis ficaram com medo e se mantiveram ajoelhando e fazendo o sinal da cruz sempre que entram em uma casa do Senhor.
Depois que saí do colégio li alguns livros em que o capeta aparecia. O primeiro foi a Divina Comédia, de Dante Alighieri. Eu não sei quantos portões do inferno abriram suas portas para mim. Achei o livro bem difícil na época. Em compensação, em O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, me fez olhar o cão com outros olhos. Nesse livro, há um diálogo sensacional entre Jesus, Deus – o pai dele – e o encardido. E aí ficou claro: não existe Deus sem o Belzebu, assim como não há céu sem o inferno, nem bem sem o mal, nem felicidade sem a tristeza, nem paz sem a turbulência, nem claro sem o escuro e por aí vai.
E se o bem e o mal sempre andam emparelhados, a comparação entre eles é inevitável. Vamos lá: as meninas da escola gostavam mais dos meninos bonzinhos ou dos malvados, que sempre as maltratavam? Ponto para o mal. Entre um PHD em biologia marinha e um especialista em emitir todo o alfabeto em um único arroto, qual é o mais legal? Dois a zero para mal. Esta vai para os leitores homens: duas meninas estão dando mole para você. Você prefere a que tem fama de anjinho ou a que foi fantasiada de diabinho na última festa à fantasia? (E não vale responder: “É só pra pegar ou pra namorar?”) Pronto. Três a zero, goleada do Satã.
Mas acontece que eu nunca fui aquele que maltratava as menininhas na escola. Muito menos consegui arrotar as vogais. E passei muito longe de pegar a diabinha. Então por que me chamam, logo eu, de a encarnação do anticristo?
Talvez seja porque eu adorei quando o Edílson fez embaixadinhas na final contra o Palmeiras. Ou quando o Kérlon, o foquinha, faz suas gracinhas para irritar o adversário. Também pode ser porque eu compartilhei das piadas sobre atirar alguma coisa do sexto andar ou elogiar alguém usando o termo “moça bonita”. Ou até mesmo porque eu amo o House, uma boa ironia e uma maldade bem encaixada. Fala sério, quem não riu da hilariante idiotice de um pároco se batizar “O padre voador”, amarrar mil bexigas nas costas e alçar vôo?
Acontece que eu odeio o tal do politicamente correto tão vigente hoje em dia. Me irrita muito um debate político com “rasgação de seda”. Ou uma entrevista que começa com “Temos que respeitar o adversário”. Arrrrrrrrre! Como é chato! Isso se reflete bem em publicidade. Hoje o CONAR bane publicidade de bola porque uma criança pode machucar caso um amiguinho com um chute forte demais. Esse ano saiu um projeto de lei que proíbe qualquer piada que cite homossexuais. Falou “viado”, pode ser preso! Não é demais? Fique sabendo de uma organização GLS que processou o Maurício de Sousa porque em um de seus gibis o Cebolinha chamou o Cascão de “menininha”. É ou nã é um crime?
Ah, claro. Não posso esquecer de que hoje não pode chamar preto de preto. E se usar o termo “negro” , que não seja da maneira pejorativa. E o anão que virou deficiente de características verticais? Pelo amor de Deus, vai? Ou seria do Diabo?
Para mim não tem coisa mais aporrinhadora do que em uma conversa em que o interlocutor inicia todas as suas frases com “Na minha opinião…” ou “Assim, o que eu acho…”. É claro que é a sua opinião, eu perguntei pra você, oras. Ou então “Não que não esteja bom, mas…” Ahhhhhhhhh! Ninguém vai bater porque falou que é ruim! Quando escuto isso, me dá até vontade de me defenestrar do sexto andar.
“Você já trabalhou com essa pessoa, né? Ela é boa?” Resposta: “Não”, se ela não for. “Sim”, se ela for. Aí você dá os porquês. Mas jamais um “olha, assim, pode ter sido comigo, não sei, mas…” Se for pra ser assim, prefiro que meu sobrenome seja grão-tinhoso.
E também, sabendo de toda aquela história de que não existe o bem sem o mal, não pode haver o politicamente correto sem o impoliticamente correto, certo? Eu prefiro integrar esse time. Desde que a camisa seja vermelho-sangue, é claro.
August 6th, 2009 at 11:48 am
O cara,
Estava procurando uma descrição da coisa ruim e encontrei o seu Blog.
Retruco: você se encagana quando diz q “coisa ruim” é invenção da igreja. ESTA SEMANA EU VI O “Coisa Ruim”: Você viu a tropa de choque defendendo o Santo Sarney? Pois é, lá nesse embate estava o próprio (Coisa Ruim)esbravejando, soltando faiscas pelos olhos, gás carbônico pelas ventas. . .