ou A versão rodrigueana do autor sobre o crime que abalou o país.

Obs1.: Qualquer coincidência de nomes, graus de parentesco, fatos e conclusões da Polícia Científica não passa de uma.
Obs2.:
Esse texto não tem a intenção de exprimir mais uma opinião sobre a coincidência acima.

A entrevista

“Somos completamente inocentes.” Foi o que disse a madrasta acusada, na primeira entrevista do casal após o crime. Mas nas ruas, a opinião era unânime: “Safados, sangues-frio, deveriam ser presos e julgados à voto popular. Se não isso, mereciam ser expostos em praça pública para que o povo decidisse seu destino.” Entretanto, como já disse, toda unanimidade é burra.

A perícia

“Eu jurei, diante do caixãozinho dela, que não sossego enquanto não descobrir quem fez isso com ela”, foi uma das frases do pai. Mas enquanto ele dizia isso, a minuciosa perícia da Polícia Científica concluía que os fatos foram os seguintes: a confusão começou no carro, enquanto voltavam do supermercado, onde a madrasta bateu na menina, que deixou nele uma prova cruel: seu próprio sangue. Como João, aquele do conto infantil Homônimo e Maria, deixando migalhas de pão como pistas do caminho, seu rubro e infantil líquido das veias marcaram todo o caminho do carro até o quarto, “todo enfeitadinho, do jeito que ela queria”. No quarto, aliás, os peritos descobriram que o sangue caiu de uma altura de 1,25m, precisamente a mesma de quando o pai, agora acusado de assassinato, carregava sua filha.

Além disso, para estancar o sangue da garota, os pais, antes maiores instituições da constituição familiar, hoje, talvez assassinos, usaram uma fralda que foi encontrada mergulhada no tanque junto a um produto que em sua propaganda prometia retirar qualquer tipo de manchas, mas não dizia para ser usado com resíduos humanos. “Isso não existe”, foi o que disseram eles na então entrevista.

Mas a perícia não parou por aí. Ao confundir o estado desacordado da filha, resultante da asfixiante ira da madrasta, o pai acreditou que sua “mocinha” estivesse morta. Então, usou a tesoura para cortar a grade proteção da janela e colocou a filha do lado de fora. Os resquícios da grade em sua camiseta, que ali estavam devido a uma forte pressão entre os dois corpos – grade e camiseta, e não pai e filha -, garantiam esse fato. Depois disso, abriu cada um de seus dedos a uma altura de seis andares e entregou a menina à morte.

12 minutos depois o resgate foi chamado. Em pouco tempo a polícia também chegou e desconfiou da versão contada pelos presentes na cena: uma terceira pessoa fez isso com a menina. Começava aí um dos maiores circos da mídia moderna.

O circo da mídia

Garantindo um aumento de 15 pontos no Ibope, a notícia esteve presente em todos os telejornais. O prédio da infelizmente famosa janela do sexto andar logo ganhou uma pequena multidão na entrada. A delegacia onde os envolvidos prestavam depoimentos ficou lotada – em São Paulo não foi registrado mais nenhum crime. Tanta gente que vendedores de algodão doce e pipoqueiros também marcaram presença, mas não para gritar “Justiça!” ou “Covardes!”, mas anunciando seus produtos mesmo. Após a entrevista, psiquiatras forenses analisaram cada uma das falas e reações “O tempo todo eles dizem que são uma família harmoniosa, mas em momento algum se olharam, se deram as mãos”. A emissora para a qual o casal a concedeu a entrevista ganhou um bom dinheiro revendendo as imagens para outros canais. E até um padre, famoso por suas missas recheadas de discos de platina e top 10, realizou um show pela paz. E nele estavam presentes milhares de pessoas, inclusive uma, que passou despercebida durante toda a história.

Os principais envolvidos na história são o pai, a madrasta e a menina. Os dois primeiro garantem, como álibi, que uma terceira pessoa esteve no apartamento e cometeu o crime. Mas quem? “É isso que nós gostaríamos de saber”.

Os envolvidos

“Nunca encostei um dedo dela”, disse o pai. “Um dedo”, completou a madrasta. “Somos uma família harmoniosa”, emendou o primeiro. “Temos brigas sim, mas toda família tem”, continuou a segunda.

Era nítido que não se amavam. Pelo menos não naquele momento. O pai, pintado como um dissimulado, esboçava algum sorriso. A madrasta, que carregava nesse título todo o terror das histórias infantis, chorava compulsivamente. Porém, se madrasta é, está substituindo uma figura de fundamental importância na instituição social primária.

A mãe da menina assassinada foi protagonista em pelo menos de dois momentos durante toda a história. O primeiro era no depoimento, no qual disse que a filha nunca reclamou de nada quando chegava da casa do pai. O segundo era no tal show da paz, realizado pelo padre. Lá, ela apareceu sorrindo e cantando. Sorrindo talvez por ter conseguido o que tinha sido o combustível de sua vida por tanto tempo.

A história de antes

Eles se conheceram no colégio. Ela usava meias até o joelho e saia rodada. Ele, gel no topete e jaqueta de couro. Ela se apaixonou quando ele se agachou para pegar o material seu material que tinha deixado cair. Ele, quando ficou sabendo, através das amigas dela, que ela o desejava tão bem.

Casaram-se após quatro ansiosos anos para ela. Para ele, após um golpe de barriga que caiu feito um pato. Antes apaixonados, eles passaram a morar juntos sem trocar uma palavra. A menina cresceu sem presenciar um beijo do pai na mãe, mas sim, em suas amantes, que o homem fazia questão de levar em casa e lhe servir o café da manhã.

Nesses anos, enquanto a filha crescia na mesma proporção que o ódio de seus genitores, conseqüências terríveis marcariam para sempre a vida dessas três tristes almas. O pai, crente que foi vítima do golpe e que perdeu para sempre sua vítima, procurava fora de casa o amor que não tinha em casa. A mãe passou a ver a filha como o agente causador da discórdia entre ela e seu amado, semente que germinava distância entra ela e seu príncipe.

Era um sábado quando a mãe chegou em casa e encontrou o guarda-roupa vazio. No quarto da filha não mais estava o a caminha, as roupinhas e os brinquedos. Uma carta do marido dizia que não se veriam nunca mais. Que ela podia esquecê-los. Que foi um erro começar aquilo tudo.

O desfecho

Lá, ela apareceu sorrindo e cantando. No show-missa, enquanto todos se mostravam indignados pelo cruel pai e terrível madrasta que matam a própria filha, só uma pessoa alcançara a verdadeira paz.

O crime foi minuciosamente tramado. A madrasta nunca saiu de casa para ir ao supermercado. Antes de ir para casa encontrar o marido e irem juntos com os filhos ao supermercado, um lenço umedecido a desmaiou na saída do trabalho.

Em um ato frio, a mãe a arrastou para dentro do seu carro, dentro do qual tirou a roupa da desacordada e vestiu-a. Era o começo de seu disfarce. Com uma máscara de resina e esmalte, um penteado idêntico e a mesma maquiagem exagerada, ela passou pela madrasta.

Daí em diante a perícia acertou em tudo. E a criminosa também. Lá, no show-missa pelo fim da violência, ela apareceu sorrindo e cantando. Tinha alcançado sua verdadeira paz.


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