Reencontro

Author: reano
13.02.2008

ou
1as namoradas e inspirações do Rio.

Na cartinha entregue cheia de vergonha, os versos falavam de flores e jardim. No traço marcado pela pouca idade da letra, sois e luas juravam e revelam as primeiras declarações de amor. Ela, com 10 e cheia de pintas no rosto, tinha as maçãs do rosto coradas e aquecidas enquanto li a carta. Ele, aos 11, esperava a tão demorada resposta em frente à cantina do colégio. As amigas vieram lhe trazer o que ele tanto aguardava. Correu para o banheiro, onde podia ler a resposta sem que nenhum dos meninos o caçoasse. Seus olhos brilharam. Finalmente estava namorando.

A chuva se mostrava incessante. A ressaca de reveillon do Rio de Janeiro vinha dessa forma. O Túnel Rebouças fora interditado de novo devido a desabamentos, bairros afastados estavam alagados e em algumas cidades próximas fora proclamado estado de calamidade pública. Definitivamente, os jornais cariocas do primeiro mês do ano deveriam ser os mesmo desde que ele se mudou para lá, há alguns anos.

Mas o Rio, o Rio continuava maravilhoso. Mesmo com o Cristo acima das nuvens densas e cinzas, as praias se mantinham lotadas, e seus vendedores ambulantes poliglotas faziam o mês em um dia. A preparação para o carnaval estava no auge. As quadras das escolas de samba atraiam os locais e os turistas. E no samba, as diferenças entre eles ficavam óbvias, desde como os pés se mexiam até a crença em um resultado honesto do desfile. Mas isso pouco importava. Nesse ano, os blocos começaram a ser redescobertos e tomavam as ruas. O clima estava ótimo e a chuva não impedia o futevôlei diário pela manhã.

A paixão pelo Rio o arrebatara há alguns anos. E uma outra estava o invadindo por esses dias. Conheceu a escocesa no Rio Scenarium, um bar localizado no centro antigo – e talvez por isso tanto o fascinava. Ele fora com os amigos, mas uma ida ao banheiro fez com que passasse por um grupo de britânicos animado com as descobertas que fizeram em terras brasileiras. Mais pelo estilo do que pela beleza, a escocesa logo chamou sua atenção. Ele, negro, alto e swingado, era exatamente o que ela esperava encontrar no Brasil.

Era um romance com data de validade. Os dois sabiam que duraria até o vôo Rio de Janeiro – Paris / Paris – Edimburgo partir do Aeroporto Santos Dummont. E a data marcada na passagem estava chegando. Resolveram então se despedir no mesmo lugar onde se conheceram: o primeiro andar do Rio Scenarium, do lado direito da pista, perto da cadeira de dentista antiga.

Nesse dia, um grupo no palco homenageava o inesquecível Cartola. Com “Oh! Minha romântica senhora Tentação, / Não deixes que eu venha a sucumbir”, os dois se fizeram um só no grande sofá no estilo kitsch. Quando o grupo entoou “Verde que te quero Rosa – é a Mangueira / Rosa que te quero Verde – é a Mangueira”, improvisaram uns passos de gafieira em frente ao palco. E ao som de “Escurinha / Tu tem que ser minha de qualquer maneira / Eu te dou meu barraco / Te dou meu boteco”, ele lhe explicou o que significava “escurinha” e os dois brincaram com o contraste entre eles. Mas foi ao ouvir os versos “Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho / Vai reduzir as ilusões à pó” que ele reencontrou aquelas pintas que ele não via desde os 14 anos.

Nesse instante, uma viagem inesperada o tirou do salão e o levou direto para sua cidade natal. Disse que iria ao banheiro (assim como fez quando recebeu a carta-resposta aos onze anos) e deixou a escocesa esperando-o no sofá. Quis rever para acreditar. E o fez. Seus olhos procuraram os olhos dela. Como há mais de 15 anos, suas maçãs do rosto ficaram coradas e aquecidas quando seu olhar cruzou com o dele. Pela sua reação, um tipo de tropeço, um tipo de engasgo, ela também fez a viagem.

Nosso lar, em nosso lar sempre houve alegria / Eu vivia tão contente / Como contente ao teu lado estou”. Esses eram os versos que cantavam quando ela veio em sua direção.

- Nossa! Meu Deus! Quanto tempo! – Disse ela.
- Uau. Pois é. Quase não te reconheci. – Mentiu ele.
Tive, sim / Outro grande amor antes do teu
Ela sorriu e emendou:
- Ah, isso é impossível! A gente não mudou nada! Olha só você! – Riu.
- E o que você faz por aqui?

“Tive, sim / O que ela sonhava eram os meus sonhos e assim”
- Estou de férias. Vim com uns amigos. E você?
- Eu moro aqui. Aqui no Rio, digo, não aqui no bar. – Brincou.
- Sério? Quem diria, hein?! De Minas para o Rio. Você está sozinho?

“Íamos vivendo em paz”.
- Não. Vim com – Qual é a classificação do que estava tendo com a escocesa mesmo? – minha, minha namorada. – “Mas comparar com o teu amor seria o fim” –
Você está fazendo o que da vida?
- Humm Eu me formei lá na EFOA mesmo. Você é quem foi embora muito cedo. Sabe que até te esperei por um tempo? – Novamente com as maçãs coradas.
E vou calar
- Sério? – fingiu estar surpreso.
- Sério. – “Pois não pretendo amor te magoar” –
- Mas nada como o tempo, né?
- Foi ótimo te encontrar aqui. Mesmo.

E despediram-se quando uma nova música já começava. “Ah, essas cordas de aço / Este minúsculo braço”. Ela voltou para o grupo com quem estava. Ele voltou para a escocesa. “Aquela mulher / Até hoje está nos esperando”.

No dia seguinte, despediu-se da escocesa para provavelmente nunca mais vê-la, como fizera há pouco mais de 15 anos.

Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Sorrir pra não chorar

Quem quiser conhecer o cenário (sem trocadilhos) dessa história, vale a pena:
Rio Scenarium
Rua do Lavradio, 20, Centro Antigo (próximo à Praça Tiradentes)
Rio de Janeiro – RJ
Tel.: (21)3147-9005

http://www.rioscenarium.com.br


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