Author: dani
12.02.2008

E então o súbito silêncio dentro de mim. Como se de repente o vazio se preenchesse de vozes caladas, e tudo que restasse fosse um breve eco imaginário dos murmúrios ditos no ouvido, encostando de leve os lábios pra causar arrepios.Era tarde quando morri. O céu mareado por nuvens amarelecidas pelos últimos raios que se atreviam pelo lado de cá. Senti simplesmente minha alma se desprender e pairar sobre meu corpo quieto. Era o espelho meu corpo deitado sob minha sombra invisível. Um espelho um pouco distorcido que exibia meu rosto petrificado numa expressão estranha. Tentei agrupar meus últimos pensamentos antes de deixar meu corpo. Mas foram muitos. E eram pensamentos interrompidos por suspiros de arrependimento.Senti a leveza e percebi que eu não era nada além de uma partícula pensante, um feixe de luz imaginário, um nada solto como aquelas pequenas partículas que pairam numa faixa de luz solar. E senti falta de meu corpo, quis voltar pra ele.Mergulhei rapidamente pelo lado direito da minha têmpora buscando o lugar dentro de mim que me acenderia outra vez, que me tornaria novamente um ser de carne, osso, coração. Mas não havia nada. Só escuridão. Nenhum som, nenhuma pequena fração de luz, de calor, de vida. Era só uma pedaço de carne sem vida. Tudo que restava de mim agora era esse fio de pensamento, sem direção e sem conhecimento que o levasse dali.Decidi permanecer junto ao meu corpo, enquanto ele ali estivesse. Logo alguém o encontraria e por um instante tentei imaginar a reação da pessoas. Não. Eu não gostaria de presenciar a cena da descoberta de meu corpo sem vida. Ou esperar enquanto alguém me despia e limpava e vestia de maneira apropriada para o funeral. E passar todas aquelas horas humilhantes ao lado do meu corpo sendo observado minuciosamente pelos amigos e parentes que chorariam, rezariam, e sairiam dali para continuar com suas próprias vidas dentro de seus corpos cheios de calor e movimento.Incrível. Realmente eu havia morrido. Estava ali estacionada um pouco acima de meu peito, verificando de perto que eu tinha as sobrancelhas por fazer. Será que alguém se lembraria de ajeitá-las para o velório? Meus cabelos estavam soltos, espalhados pelo piso frio do banheiro. Por que mesmo eu teria deixado que eles chegassem a esse comprimento? Eu usava uma camisola curta de flores pequenas coloridas. Meus óculos de leitura estavam meio tortos, mas continuavam encaixados no meu nariz. Minhas unhas bem feitas e em minha mão um frasco pequeno. Ah sim, as pílulas haviam acabado. As malditas pílulas que me manteriam viva, dentro desse corpo aí, do qual eu já começava a me distanciar.Sim, não sentia mais que aquele corpo me pertencia ou que aquela figura bizarra e descomposta no chão tinha sido eu algum dia. Seria eu esse mesmo pensamento solto no ar se tivesse habitado um outro corpo? Sentia-me feminina como sempre e não achei provável naquele momento que eu pudesse encarnar um corpo masculino. Ou um cão. Ou uma planta qualquer.Pensei então nas pessoas que eu amava. Elas me amariam da mesma forma se eu tivesse outra cor de pele, outros cabelos, outro corpo? Teria sido eu tão feliz e tão triste com outra aparência quanto fui com essa estendida bem à minha frente?E então me ocorreu a inutilidade de minha existência.Eu era agora um mero pensamento solto no ar, com todo o conhecimento adquirido em minha vida contido nele, nesse nada flutuante. E não consegui distinguir minhas pegadas pelo mundo. Não consegui naquele momento enxergar as marcas que eu deveria ter deixado, boas ações. Mas meus erros eram bem visíveis. Todos eles. Do primeiro ao último. E me senti muito só naquele silêncio. Pensei que se eu pudesse voltar faria tudo diferente. E começaria a mudar minha vida daquele momento em diante.


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