Foto

Author: reano
22.01.2008

ou
Um pedaço do tempo no papel.


A primeira rodada foi deles. Um dois o desafiava agora. Na mão, um três e um cinco sem valor. Com a maior carta, empate garantido. Mas a menor não asseguraria a vitória. O parceiro nada tinha. Ou, se tinha, nada de sinal. O único jeito era blefar. – e tudo isso passou pela sua cabeça em poucas frações de milésimo, sem que a dúvida transparecesse em seu rosto. “Truco”, entoou confiante. Era tudo ou nada. O tudo valia reaver o caminhão. O nada valia a aliança de ouro.

Já estava no batente há quase 24 horas. Esse boteco fuleiro, onde se encontravam as melhores espécies de perdedores natos, era o seu terceiro emprego do pão nosso de cada dia. Com o sol, fazia bicos de pedreiro, encanador e pintor. Com a noite, entregava mussarelas e calabresas com ou sem cebola. E no primeiro ônibus da madrugada, servia cafés, pingas e cervejas em um beira de estrada, ganhando apenas o 10% do serviço. Serviço que indicava o fim da jornada. Mas no caso daqueles viciados que molhavam as cartas no álcool, era só o começo de mais um péssimo dia, ele pensava. Mas um flash interrompeu sua linha de raciocínio.

Nunca vivera paixão assim. Mal havia chegado à tão esperada cidade grande, à terra das oportunidades, conheceu aquele que diz ter sido o homem da sua vida. Amaram-se de repente e ainda quando a coisa estava quente, ele levou o pouco que ela havia trazido, proveniente da venda de tudo o que tinha na cidade natal. Resistiu à vida fácil e mergulhou num pedregulho de empreitadas e homens. Com uma filha nos braços, conseguiu montar um bar que pouco dava além da comida da menina. Tornou-se dura. As únicas emoções que seus olhos transmitiam era a certeza de que todo esse inferno existia graças a um homem repugnante, como aquele que agora perdia tudo na mesa de truco.

A viagem já durava quase um dia inteiro e o volante pesava tanto quanto suas pálpebras. No retrovisor, seus filhos, ainda pequenos, dormiam. Eram as criaturas que ele mais amava na Terra. E por isso não quis arriscar suas vidas. Decidiu parar na primeira bodega que encontrasse para tomar um café e acordar. Sem que as crianças acordassem, parou o carro e se dirigiu ao balcão. Interrompeu a atendente que olhava com raiva para uma mesa onde quatro homens jogavam carteado e pediu um café. Obedecendo ao grito da mulher, uma jovem linda, de cabelos encaracolados, saiu da cozinha e lhe trouxe o café. O café então não tinha gosto nem aroma, não se sabe se estava quente ou frio, pois o homem não o bebeu. Ele se embebedou da beleza da menina e tinha a certeza que nunca vivera paixão assim.

A vontade de fazer xixi o acordou. O cinto de segurança estava apertando sua bexiga. E claro que nada disso passava pela sua cabeça de dez anos, só a vontade de fazer xixi. Estranhou o carro parado e o pai ausente dele. Viu que sua irmã mais nova dormia na cadeirinha. Viu também que estavam em frente a uma casa velha, mal cuidada, cheia de homens sujos e – com exceção da mesa com os quatro que gritavam – silenciosos. Decidiu procurar o pai. Antes de descer, por empolgação com a viagem, pegou a câmera com a qual veio tirando fotos da estrada. Avistou o pai no balcão e armou a câmera. Sem que ele percebesse, tirou uma foto no exato instante em que o pai recebia – com uma cara muito engraçada! – o copo da mão de uma moça.

Mal tinha nome e já sabia manejar uma vassoura. Nunca soube o que é brincar, a não ser que as brincadeiras fossem se imaginar cozinheira ou cantora, embalada pelo rádio do bar em que crescera. Conhecia os fregueses “da casa” desde que andava só de calcinha e descalça ajudando o serviço da mãe. Um desses fregueses era o que agora apostava o caminhão e uma aliança igual a sua na mesa de truco. Era um canalha. Foi conquistada ainda inocente, e assim se entregou a ele. A partir de então ele mamava nas garrafas da mãe e seu amor como marido se resumia a algumas palavras machistas e atos românticos na cama. Mas hoje, se aquele cachorro perdesse tudo no carteado mais uma vez, hoje, hoje seria o fim. E talvez nem precisasse esperar as cartas decidirem isso por ela.

A menina no carro dormia, indiferente à aliança apostada ou à batalha do garçom, ao asco da mulher rejeitada ou a paixão despontada no pai, aos sonhos da menina esperançosa ou ao flash do irmão mais velho. A menina dormia. E tudo isso era descartável para ela.


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